— Olá!?!... Mas... Quem é você?
— Ah!, desculpe-me, esquecei das apresentações. Sou o Crime! E, se não me engano, o senhor é o Sr. Ninguém, correto?
— Correto, sou o Sr. Ninguém! Mas seu nome é Crime? Que nome estranho!
— Sim, Crime, e não é um nome estranho. É um nome tão comum nos dias de hoje como o seu, Sr. Ninguém!
— Humm... está bem... E em que posso ajudá-lo, Sr. Crime?
— Eu vim especificamente tratar de negócios. Negócios com o senhor!
— Puxa! Sério? Não me lembro de ter negócios pendentes com o senhor, Sr. Crime.
— Ah!, mas tem. Todos têm negócios comigo! Embora não pareça, e certamente o senhor nem imagine o motivo, eu tenho assuntos a tratar com o senhor.
— Muito bem, se o senhor diz que tem negócios a tratar comigo, vejamos então quais são eles!
— Ótimo, vamos a eles. Passe seu dinheiro, documentos, relógio e corrente imediatamente!
— Ei, mas que história é essa?
— Como assim, que história é essa? São os negócios pendentes, oras! Vamos, vamos! Não tenho tempo a perder, isso é um assalto e tenho outros clientes para visitar.
— Assalto!?!? Pensei que você tivesse negócios a tratar comigo, e isso não é negócio a ser tratado!
— Claro que é, Sr. Ninguém. Este é meu trabalho e posso garantir que estou dentro da Lei, aliás, só trabalho dentro da Lei, já que é um trabalho perigoso, por vezes violento e sem garantia de remuneração. É uma profissão de risco!
— Mas quanta bobagem! Desde quando assaltar pessoas passou a ser um trabalho honesto?
— A partir do momento que a Miséria e a Fome me obrigaram! Desculpe-me, Sr. Ninguém, mas é assim que funciona. Eu preciso ter o meu lucro para poder sobreviver, portanto dependo de clientes como o senhor e, de preferência, que colaborem comigo. Mas vamos deixar de papo furado e passe logo esta carteira cheia, vamos!
— Ora, seu atrevido, tire suas mãos da minha corrente! E devolva minha carteira, safado!
Sons de briga, um disparo, um grito, um homem correndo, um corpo ao chão...
— Mas que pilantra, roubou minha carteira e quase consegue levar meu relógio e...
— Oi!
— Oi... Ei, quem é você?
— Eu sou a Morte!
— Cruzes! Deixe de brincadeira, não tenho tempo para isso, preciso chamar a polícia, acabaram de roubar minha carteira, sabe?
— Sei, é por isso que vim. Foi rápida, não foi?
— O que, o assalto?
— Não, sua morte!
— Ah, claro, minha morte... O QUÊ? MINHA MORTE?!?!
— Sim, você morreu!
— QUANDO?

— Não, não acho! Além disso, eu não posso estar morto, não posso morrer, tenho muitas coisas a fazer... sabe, eu... eu... eu tenho família, trabalho, contas a pagar, tenho...
— Não se aflija, Sr. Ninguém, essas coisas podem acontecer com qualquer um.
— NÃÃããoooo.... Eu não quero morrer, quero continuar minha vidinha pacata!
— Calma... calma... Dê sua mão... Isso... Assim... Venha, vamos embora, seu tempo acabou!
— Mas por que eu Dona Morte? Por que a senhora não foi buscar um político, um ricasso ou um outro famoso qualquer?
— Exatamente por você ser quem é!
— E quem eu sou?
— Ninguém, ora! Hoje as coisas são assim, muito rápidas. É por isso eu não tenho tempo de escolher, além disso, há muita concorrência e outras Mortes podem surgir a qualquer momento e...
Uma freada brusca, um som de batida, um corpo atirado ao chão.
— Ah não! Olhe lá! Puxa, que azar...
— O que foi, Dona Morte?
— Ali, ali na esquina, veja! O Sr. Acidente atropelou alguém. Olha aí, não te avisei? Fiquei conversando com o senhor e outra Morte foi buscá-lo. Assim não dá! Como eu vou dar continuidade ao meu trabalho? É muita concorrência e isso é desleal!
— HAhaHAhaHA!!!!
— Hei! Isso não é engraçado, dessa forma meus números caem nas estatísticas!
— Desculpe, mas não estou rindo da senhora, estou rindo da situação, é irônica!
— Qual situação? Que ironia?
— O acidente! Aconteceu com o mesmo Crime que me assaltou!
— Puxa, não é que você tem razão? Que coincidência, não? Realmente, há um toque de ironia na situação.
— É mesmo... A vida é cheia de surpresas... Quando a gente menos espera, vem a Morte e nos leva...
— Corretíssimo! Sou pontual em meu serviço. Quando a hora chega, estou pronta para levar seja quem for. Está pronto? Vamos embora?
— Sim, estou. Vamos!
Assim que a Morte levou o Sr. Ninguém, alguém na multidão que se formava em torno do acidente lamentava diante do corpo maltrapilho e estirado:
— Coitado, o sujeito estava correndo tanto... Devia estar atrasado para o trabalho!
Do outro lado, enquanto a polícia recolhia o corpo do Sr. Ninguém, alguém comentou:
— Ah, isso foi acerto de contas. Certeza! Olha a cara desse Zé Ninguém. Ele não me engana, mesmo com essa roupinha bacana. Ta na cara que não passava de um safado!
Por Rafael Franzin